O Princípio Ativo Da Vida Da Igreja

Atualizado: 8 de jul. de 2021

Paulo Manzini


Princípio ativo é o elemento que, misturado ao excipiente de um medicamento, faz com que o mesmo produza o efeito desejado. É o verdadeiro remédio, aquilo que realmente age na enfermidade. O princípio ativo da vida da igreja é a comunhão no Espírito Santo.

Quando dizemos que vamos “dar glória a Deus” precisamos entender João 17, onde Jesus diz que a verdadeira glória de Deus é conseguir com que o Espírito Santo nos torne abertos e sensíveis a Ele. Em outras palavras, nada pode ser “inventado” na igreja: não podemos ter comunhão inventada, adoração inventada etc. Tudo o que acontece na igreja só pode acontecer pelo Espírito Santo, e Esse nos foi dado para realizar as coisas que Deus quer realizar em nosso meio.

Quando recebemos o Senhor Jesus, recebemos o “pacote apostólico” completo: o arrependimento, a fé e o Espírito Santo (que já estava trabalhando fora de nós, nos impulsionando a sentirmos a necessidade de Jesus), para que as coisas aconteçam em nós de dentro para fora. Assim, temos o Espírito não apenas por dentro, mas também por fora, como uma roupa que nos veste, e a igreja depende Dele para realizar todas as suas obras na Terra.

A nossa alma é riquíssima em inventar coisas parecidas com as do Espírito Santo. Mas o fato é que Deus quer nos levar nesses dias a agir somente pelo Espírito que nos foi dado. Todos quantos recebemos a Cristo somos individualmente templos do Espírito e é por meio Dele que a verdadeira vida de Deus nasce em nós e nos torna dinâmicos no sentido de nos movermos individualmente. Só que esse mesmo Espírito nos torna “permeáveis”, “misturáveis”, “esponjosos”, porque quando encontramos outra pessoa que também O recebeu, tornamo-nos atraídos por ela independentemente de qualquer coisa, pois é o mesmo Espírito que habita nela e em nós.

O homem natural (que não tem o Espírito) pode ter amizades, mas não é permeável, misturável e, sim, isolado ou trancado em si mesmo. Isso é o início do inferno: não termos a comunicação que fomos criados para ter, a comunicação no Espírito. O homem natural pode fazer caridade, pode demonstrar afetos, pode se apaixonar, mas no fundo é egoísta até o limite máximo da sua possibilidade. Porém, quando ele recebe o Espírito Santo quer se misturar, pois Ele é o Espírito da comunhão e Jesus diz que essa comunhão é glória para o Pai:

E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, como o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que tu enviaste. Eu te glorifiquei na terra, completando a obra que me deste para fazer. (Jo 17.3,4)

Jesus glorificou o Pai fazendo a vontade Dele. Assim, nossas glórias ao Pai também devem ter como fundamento o espírito de obediência, de fazer a vontade de Deus.

Agora, pois, glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que eu tinha contigo antes que o mundo existisse. (Jo 17.5)

A glória que Jesus tinha com o Pai antes que o mundo existisse era a “perfeita unidade”. Isso é melhor explicado por ele logo adiante:

E rogo não somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim; (Jo 17.20)

Jesus estava orando por aqueles que estavam ao seu redor naquele exato momento do tempo, mas também por todos aqueles que o conheceriam a partir de então, ou seja, por nós hoje, para que tivéssemos a mesma glória que ele tinha da parte do Pai.

…para que todos sejam um; assim como tu, ó Pai, és em mim, e eu em ti, que também eles sejam um em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste. (Jo 17.21)

Pessoas impermeáveis, que não têm o Espírito Santo, nunca serão “um”. Serão apenas um amontado de gente: clubes, grupos etc., mas nunca conseguirão se tornar “um”. Isso só é possível quando temos o mesmo Espírito Santo. Deus, quando nos enche do Seu Espírito, nos mistura, nos torna “um”, algo que era algo impossível antes de conhecê-Lo. Tornamo-nos, então, pessoas misturáveis, permeáveis, esponjas uns dos outros, desejosos de viver ligados.

Jesus pede para que “eles sejam um em nós”. Isso é muito forte! Ele poderia pedir apenas que fossemos um entre nós, mas nessa oração ele nos chama para dentro da Trindade. Quando cremos somos incluídos nessa Trindade, “misturados” com Deus, Jesus e o Espírito Santo.

E eu lhes dei a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um; eu neles, e tu em mim, para que eles sejam perfeitos em unidade, a fim de que o mundo conheça que tu me enviaste, e que os amaste a eles, assim como me amaste a mim. (Jo 17.22,23)

Durante séculos essa palavra não pareceu ser muito prática, mas agora chegou o tempo dela se revelar e se tornar prática no meio da igreja. Homens e mulheres transformados pela fé em Jesus Cristo, cheios do Espírito Santo, ligados uns aos outros da mesma forma que Deus é ligado a Jesus, misturados entre si, com Deus e com Jesus no ambiente do Espírito. Esse ambiente está se tornando cada vez mais intenso, então, não fique assustado se você começar a sentir seu amor pelos irmãos intensificar, se sentir o desejo de se misturar a eles de forma plena, se alianças começarem a surgir na sua vida.

Nossa preocupação deve ser que a Palavra de Deus se torne vida em nós e entre nós. O plano do Senhor não é que Seus filhos apenas falem coisas bonitas. A “estética” do conhecimento é algo fascinante para mente humana racional. As palavras bíblicas são maravilhosas, mas elas não são apenas para serem esteticamente confortáveis ou inspiradoras. Essas palavras sobre sermos um, sermos permeáveis, termos ligações profundas, laços de comunhão com Deus e uns com os outros devem se tornar práticas em nossas vidas.

Ainda vos digo mais: Se dois de vós na terra concordarem acerca de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por meu Pai, que está nos céus. Pois onde se acham dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles. (Mt 18.19,20)

Essa palavra é prática! Ela encarna a oração de Jesus em João 17. Duas ou três pessoas reunidas em nome de Jesus, cheias do Espírito Santo, ligadas à eternidade, firmadas na Palavra, concordando umas com as outras poderão pedir qualquer coisa e Jesus fará. Muitos já têm experimentado isso na prática. Às vezes, em família ou em um grupo de irmãos, quando há concordância as coisas começam a acontecer. Mas é preciso entender que só conseguiremos concordar de verdade se for em um ambiente permeado pelo Espírito Santo. É Ele que nos mistura e nos faz ter o mesmo pensamento e sentimento. Isso é um milagre, e Deus quer que esse milagre aconteça todos os dias e todas as horas em nossas vidas e na vida da igreja.

Recentemente concordamos em levantar uma oferta para uma pequena reforma em nosso salão de reuniões. Eu não tenho dúvida alguma que já conseguimos, pois falamos “sim” juntos; o Espírito Santo nos moveu unanimemente à isso para nos treinar nessa prática. O dinheiro em si não é nada, mas isso é um treino para aquilo que Deus quer que façamos, para a missão que Ele tem nos chamado. Deus não quer apenas que tenhamos prosperidade, pois isso Ele vai nos dar, mas o que Ele quer é que aprendamos a nos misturar, a concordar uns com os outros – algo precioso, poderoso e raro em nossos dias.

A nossa alma, no entanto, tende a pensar da seguinte forma: “Eu vou me reunir com alguns irmãos, vamos concordar em algumas coisas e Deus será obrigado a nos atender!” Não! As coisas só podem acontecer se começarem no Espírito e pelo Espírito. Tenho uma alegoria sobre isso: se você pegar um violão afinado com um piano, colocá-lo em cima do mesmo e teclar o “mi” no piano, o som começará a reverberar e fazer a corda do violão, que nem foi tocada, fazer som – isso se chama reverberação. Então, se dois ou três irmãos estiverem em comunhão com Deus, concordando entre si, e um deles falar algo pelo Espírito, os corações dos demais começarão a reverberar, a vibrar na mesma frequência da dele. E, na medida em que essa frequência toma conta de todos, tudo o que conversam acontece no céu e desce para a Terra.

O que Deus tem para nós são coisas poderosas! Não são teorias ou palavras esteticamente bonitas que apenas agradam a alma, mas são coisas práticas. Até uma criança, se falar algo pelo Espírito, isso irá repercutir, reverberar no coração de outros e Deus vai realizar, pois todos estarão no mesmo “som”, na mesma frequência, trazendo paz e confirmação do Espírito.

Durante muito tempo tivemos em nossa casa uma mesa onde a família se reunia e conversávamos muitas coisas. Ali Deus falou muitas vezes conosco – coisas sérias, mudanças graves, difíceis de serem feitas. Quando sentimos paz juntos nem precisamos orar, pois Deus já está fazendo e as coisas estão chegando do céu para a terra. Há muitas coisas boas que Deus já preparou nos céus para que andássemos nelas aqui na terra (Ef 2.10). Ou seja, há coisas no céu que apenas estão esperando que concordemos com alguém na Terra para que possam acontecer.

A igreja é o céu na terra, é a porta do céu! Quando concordamos com a Palavra, quando sentimos e concordamos unanimemente com as coisas que Deus está falando conosco, isso já está acontecendo, ou seja, o “sim” coletivo traz à realidade aquilo que era apenas teoria. Alguns pensam que precisam fazer “força” para Deus operar mudanças, mas não é assim; basta conversarmos com aqueles que nos são próximos, concordarmos juntos no Espírito e a reverberação do Espírito tomará conta dos nossos corações, a alegria do céu nos encherá e o que pedimos acontecerá.

Concordar é algo que está previsto por Deus:

Portanto, se há alguma exortação em Cristo, se alguma consolação de amor, se alguma comunhão do Espírito, se alguns entranháveis afetos e compaixões, completai o meu gozo, para que tenhais o mesmo modo de pensar, tendo o mesmo amor, o mesmo ânimo, pensando a mesma coisa; (Fp 2.1,2)

Isso é a vida do Espírito se movendo em nosso meio! Nesses dias veremos um novo afeto nascendo em nossos corações e aumentando a compaixão. Todas as pessoas salvas por Jesus, transformadas por Deus, cheias do Espírito Santo têm a possibilidade de ter o mesmo amor, o mesmo ânimo, pensar as mesmas coisas, ter ressonância entre elas. Quando pensamos as mesmas coisas já está acontecendo um milagre.

Rogo-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que sejais concordes no falar, e que não haja dissensões entre vós; antes sejais unidos no mesmo pensamento e no mesmo parecer. (1 Co 1.10)

A Bíblia é repleta de recomendações e exortações para que tenhamos uma repercussão horizontal daquilo que Deus fez em nós de maneira individual. Quando nós entramos pela porta, que é Jesus, entramos sozinhos e “empurrados” pelo Espírito Santo, mas, depois, fomos mergulhados no Corpo onde a comunhão do Espírito permeia.

Quero fazer uma exortação: precisamos desenvolver em família um exercício de concordar. Quando um homem e uma mulher se casam eles recebem uma missão de Deus. Essa família tem um caminho a ser trilhado, uma obra de Deus a ser estabelecida. No entanto, ficamos pensando em coisas muito espirituais e Deus quer mostrar a Sua glória em nós à medida que exercitamos a comunhão do Espírito em torno da mesa: Onde vamos morar? Onde vamos trabalhar? Com que irmãos nos reuniremos? Quais profissões nossos filhos devem escolher? Quais viagens faremos? Como usaremos as próximas férias? Como usaremos determinado dinheiro?

Todas essas coisas só serão respondidas na comunhão uns com os outros na família. São coisas aparentemente naturais, mas Deus quer que as tenhamos em abundância, sem miséria. Nós não temos a prática do evangelho da prosperidade – dar para ficar rico – mas caímos para o outro extremo: não falar sobre esse assunto! Mas o fato é que Deus tem e quer nos dar muitas coisas. Deve haver, em primeiro lugar, comunhão em casa: marido e esposa, pais e filhos. Se não estamos tendo comunhão, sonhando juntos, conversando coisas para o futuro, então há algo enroscado. Existe a necessidade de deixarmos que o Espírito nos torne permeáveis em casa.

Abra o seu coração, tenha dúvidas, fique inseguro. Às vezes o marido tem certeza total do que deve ser feito e a esposa não tem nenhum espaço para interferir; ele é alguém impermeável, que não precisa da esposa e do Espírito Santo. Os homens têm essa tendência a ser impermeáveis. Ouvimos recentemente uma palestra de um psicólogo dizendo que os homens falam: “Eu sei, eu posso, eu consigo, não preciso de ninguém”. Ora, quem já sabe tudo e não tem dúvida alguma já está pronto para morrer! Maridos precisam ter dúvidas, precisam perguntar coisas para suas esposas e filhos.

Lembro-me que, certa vez, Deus me inquietou para mudar de profissão. Estava com meus filhos adolescentes e sentindo um impulso para ir para outra profissão da qual não sabia nada. Então reuni minha família, abri o coração e disse: “Estou inseguro, estou com medo dessa mudança e preciso ouvir suas opiniões!” Eles me disseram: “Vá! Nós estamos com você aonde quiser ir!” E Deus nos abençoou poderosamente naquela decisão. Foi algo divino e os milagres aconteceram porque tivemos comunhão. Deus falou e os céus se abriram. Da mesma forma, Ele quer que todos nós experimentemos essas coisas, primeiro em casa e depois com o Seu Corpo.

Por fim, Deus nos tem dado companheiros de jornada. É impossível ter relacionamentos intensos e genuínos com muita gente, mas é possível e necessário tê-los com alguns poucos com quem nos misturamos de verdade, com quem sejamos genuinamente transparentes e permeáveis. Talvez sejam apenas dois ou três, mas estes serão indispensáveis em nossas vidas.

Deus quer que sejamos sensíveis às alianças que Ele tem nos dado na Terra, de forma que gozemos aqui de maneira prática e palpável da mesma comunhão que existe no céu entre Ele, o Filho e o Espírito. Mas, para isso, precisamos ter um coração de aliança. Às vezes, por qualquer discordância, rompemos relacionamentos. A Bíblia diz que nos últimos dias os homens serão amantes de si mesmos e infiéis às suas alianças (2 Tm 3.1-5; Rm 1.31). No entanto, eu quero declarar que a igreja está caminhando na contramão do mundo! Os cristãos estão aprendendo pelo Espírito a reconhecerem aqueles que Deus lhes deu para andar juntos, ter comunhão e aliança. Deus nos deu algumas pessoas, mas, em contrapartida, Ele também NOS deu a elas. São presentes que Ele nos concedeu aqui na Terra e, por isso, devemos nos tornar hábeis para identificá-las.

Assim, nesse ambiente de comunhão iremos discernir o Corpo – entender que somos ligados a algumas pessoas da mesma forma que o braço é ligado à mão e, então, teremos zelo e temor com as nossas ligações ou alianças. Iremos aproveitar esse recurso (o mesmo que Jesus utilizou com o Pai) para termos glória, para recebermos da graça do Pai e do Filho na nossa comunhão e, em nome Dele, trazermos as coisas do céu para a Terra. São essas coisas que farão o mundo enxergar que a nossa vida não é simplesmente uma doutrina, mas uma prática que transforma pessoas e ambientes. São os relacionamentos que trazem as coisas do céu por meio da comunhão do “dois ou três”.

Quando tomarmos a Ceia, a primeira coisa que devemos fazer é discernir o Corpo de Cristo (1 Co 11.29), é entender que Deus nos deu pessoas para vivermos em comunhão. Se você está isolado ou sozinho, se tem certeza de tudo, arrependa-se dessa atitude! Peça para o Senhor lhe tirar essa certeza, pois, quando você tem dúvidas, outros irmãos terão espaço em sua vida. Se você já tem todas as certezas não precisa de ninguém! Por isso precisamos ter incertezas, inseguranças e necessidade dos demais. Isso é discernir o Corpo. Temos muitas falhas, mas também temos quem nos supre, ajude, corrija e complete, pois são irmãos diferentes de nós.

A unidade na diversidade é o milagre que Deus está querendo realizar na igreja nesses dias. Unidade no Espírito, unidade de pensamento, unidade de sentimento: falar a mesma coisa, pensar a mesma coisa, ter o mesmo ânimo, ter o mesmo amor para que o Espírito possa, enfim, varrer a Terra com as coisas do céu. Amém!

Transcrição e Edição: Luiz Roberto Cascaldi

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